sábado, 27 de novembro de 2010

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.

Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

RIO EM GUERRA


É muito triste para todos os brasileiros uma guerra em uma cidade tão maravilhosa como o Rio de Janeiro. Esse triste evento não é conseqüência de fatos/atos recentes, é conseqüência de péssimas escolhas e certas parcerias ao longo dos anos.

Uma semente é plantada, a árvore crescerá, se ninguém podá-la continuará a crescer conforme o tempo até um dia que qualquer vento, qualquer acaso, fará ela começar a cair e destruir o que tem embaixo e/ou por perto. É o que está acontecendo.

"Começando pelo começo", via de regra, todos nascem iguais, porém infelizmente nem todos tem as mesmas oportunidades na vida. Por aí começamos a montar seres humanos distintos, com ideias pensamentos de vida, princípios e morais diferentes. O marginal não nasceu assim (contrariando Lombroso), ele se tornou o que é conforme suas necessidades, oportunidades e realidades.

Depois que eles estão "formados", o Rio, o governo, o Estado, os responsáveis em geral não tiveram disposição o suficiente para tentar controlar a situação, eles não podaram quando estava crescendo a árvore, e assim ao longo dos anos o problema estava começando a se formar perfeitamente. É muito mais fácil ver o que acontece do que prever futuros estragos e tentar evitá-los, claro, é mais barato e traz menos transtornos (a curto prazo).

Ao ver que a situação era complicada, a solução mais razoável (novamente) era a "negociação". Nunca soube que o Diabo fez acordos com Deus, não no meu mundo. Em eventos mundiais relevantes na cidade é possível ver isso, tem menos assaltos, menos homicídios a extrangeiros, turistas, comparado ao que realmente deveria ter, em prol da cidade. Por que? Porque os bandidos resolveram poupar o pessoal de fora ou porque eles receberam uma boa proposta para isso? A resposta me parece ridícula.

Conforme se vai alimentando a situação, com certeza chega a hora que ela fica incontrolável. Tem que se fazer algo, o fácil já não é o suficiente e as opções não são mais vantajosas. "Teremos que dar a cara a tapa". Em função da objetividade de antes e da falta de preparação quem acaba sofrendo são os que jamais negociaram com nada, que não sabiam o que acontecia por trás dos bastidores, o povo, o inocente, a criança, o pai, a mãe, o trabalhador, aquele que não tem um carro blindado e nem a proteção de ninguém, inclusive a proteção de muitos moradores de favela não é o Estado, mas sim o traficante, o bandido. Quem protege os militares que não entraram em acordo algum? E a família deles? Ninguém protege mais ninguém. Cada um por si... em favor do todo (agora? irônico, não?).

E agora? Não sei qual o desfecho. Pessoas mortas, trinta veículos queimados em um dia, setenta e dois em quatro dias. Pessoas em pânico, crianças apavoradas, medo nas ruas. E a culpa? É de quem?


'Não é lamentável que só possamos obter a paz preparando-nos para a guerra?' John Kennedy

COVARDIA

Ter medo e não agir como se deveria pode ser a pior coisa que tem. É vergonhoso, não se tem orgulho, não se tem nada. Covardia é uma omissão desprezível e ao mesmo tempo protetora, depende a quem atinge... ou deixa de atingir.

A minha covardia é relativa a mim mesmo, deve ser a pior das espécies. Eu fujo dos meus pensamentos, da minha personalidade, das minhas vontades, dos meus desejos... fujo de mim! Não atinge à mais ninguém, muito pelo contrário. Quando eu lido com os outros não tenho medo, não tenho fraquezas, tomaria um tiro por qualquer pessoa, enfrentaria um ladrão, qualquer um. Talvez não ajudasse o necessário, mas jamais fugiria de uma luta, que não fosse contra mim mesma.

Isso não foi, não é e nunca será um motivo de orgulho. É realmente vergonhoso e desprezível. Mas as incertezas que a vida oferece são tantas, os caminhos são tão distintos, as pessoas são desconhecidas, os fatos são novo, é sempre como caminhar num labirinto no escuro e não saber onde se pode dar. Só poderá saber quando já estiver lá. E se não for o que eu queria? E se peguei a estrada errada?

Me conformo de certa forma de não atingir terceiros e a covardia ser algo pessoal. Não suportaria saber que a minha fraqueza maior é incontrolável e interfere na vida alheia. Acho que ninguém poderia ficar tranqüilo sabendo algo assim, ao menos não é do meu caráter. Posso envergonhar-me de mim mesmo, mas ninguém mais pode ter esse sentimento em relação a mim pelo mesmo motivo.

"Covarde é aquele que não abre novos caminhos na vida, nem emprega as suas forças para enfrentar os obstáculos."

(pensado dia 25/11/2011)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CICLOS

É impressionante como a vida pode jogar com as pessoas. Quando realmente as janelas se fecham, surge uma chave pra poder abrir a nova porta... achamos que tudo já foi feito, não há esperanças para algo melhor e diferente e pode-se prever tudo que viria, aí vem a surpresa! Ninguém pode prever tudo e o imprevisível pode surgir a qualquer momento, de qualquer modo, de qualquer pessoa.

Costumo sempre pensar que é perigoso desejar - cuidar com o que deseja - que talvez isso possa tornar-se possível, e cada vez mais comprovo essa teoria. Mesmo com a incerteza da mudança já muda as perspectivas e todo as outras impressões interiores.

O ciclo vem o latim kúklus, uma forma redonda, e assim são as etapas da nossa vida divididas em ciclos, e como toda roda, ela tem uma limitação, ela acaba e começa - não se sabe onde - mas ela tem um fim, não é infinita. E quando já percorremos todos os caminhos já não se tem mais pra onde ir, e então surge uma "nova roda" para seguirmos por ela. Fantástico!

E pra onde foi o medo? O medo de saltar de uma para outra? Por vezes ele simplesmente desaparece, a repetição traz o cansaço e essa falta de estimulo estimula (irônico não?!) para uma nova situação fazendo com que o medo evapore. Mesmo o medo sendo um sentimento de proteção quanto ao novo, o novo é capaz de superá-lo e trazer novos sentimentos mais positivos.
Como pode uma simples expectativa causar tantos efeitos? E a realização causaria mais?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

ESCREVER

Momento opinião...

Escrever é uma arte, um passatempo, uma forma de estudo ou uma terapia. Autores colocam no papel seus pensamentos, seus personagens fictícios, personagens esses que muitas vezes existem dentro de cada um deles, alguém que gostaria de ser, alguém que já foi um dia, algum tipo de personalidade oculta talvez.

A escrita não faz nada além do que bem, pra quem escreve principalmente. Mas pode ser uma poderosa arma usada para o mal, um texto bem escrito pode ser uma forma de manipulação, pode levar milhões de pessoas a acreditarem em algo que não existe, só pelo dom do escritor.

O papel é o terapeuta, o psicólogo que não te julga, que não opina, que não te cobra; só te olha, só espera a próxima palavra, a próxima frase. No papel que são escritas aquelas frases que ninguém pode ler, aquela raiva que ninguém pode saber, aquele amor que ninguém pode imaginar. É uma terapia que qualquer um pode praticar, desenvolver, o jogo que pode ser usado com as palavras é lindo.

Eu diria que, se bem usado, o papel pode ser o melhor amigo de uma pessoa. Escrever é uma forma de liberdade.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

NO TITLE

Os lábios que me chamam,
que me visam,
que me molham

O áspero que, com o atrito,
torna-se liso, limpo, perfeito.

Mas tua foto já não me encara mais.
Já posso por meu casaco.

Dormir abraçada no travesseiro
apenas sentindo seu cheio
que insiste em ficar.

Teu perfume exala, sempre que tento esquecer,
Da maldita vez que me perdi de você.

Para você só sobraram meus pesadelos,
Meu sonhos já superaram.
Agora é a hora... já posso por meu casaco.